Desculpe a demora em postar novamente, mas sabe como é virada de ano, arrumação da casa, to tentando organizar minha vida e com alguns probleminhas de praxe. Mas, enfim, aqui estou....
Trago este texto da Carolina Maria de Jesus que têm sido praticamente, a autora que eu mais admiro até aqui. Admito, e não me orgulho disso, que conheço ela há pouco tempo (não sou tanto de ler assim, a não ser periódicos científicos e outros tipos de reportagens, entre outros...).
Mas já vi apresentações de teatro, uma foi durante a Feira do Livro de 2014 em Porto Alegre (me emocionei bastante) e em algum outro lugar que eu não vou lembrar agora (tenho um pequeno probleminha de memória as vezes, acho que é a idade hehe). Bom, estas situações foram o suficiente para procurar saber mais da história dela, de ler mais poemas dela, assim como apresentações utilizando textos adaptados dela.
Recomendo muitoooo!! E também estou procurando aprender e estudar mais sobre ela.
Quanto mais soubermos de pessoas, como nós, negras, mulheres, da favela, periferia, de bairros de classe baixa, estudantes (quando podem) acho que devemos valorizar cada vez mais para poder dar força a nós mesmas, de uma certa maneira.
Acredito que estamos numa fase de transição muito bonita em alguns aspectos, mas ainda temos que prestar muita atenção nos percalços do caminho e ler nas entrelinhas para não nos sentirmos feito bobas depois. E mesmo passando por esta fase, acredito que este texto que trago aqui dela, ainda reflete alguns aspectos cotidianos que vimos em 2014 e já estamos presenciando em 2015.
Espero que gostem e até a próxima postagem, onde foi falar mais de mim, da minha vida e das minhas correrias hehe...
Quarto de Despejo
Quando infiltrei na literatura
Sonhava so com a ventura
Minhalma estava chêia de hianto
Eu nao previa o pranto. Ao publicar o Quarto de Despejo
Concretisava assim o meu desejo.
Que vida. Que alegria.
E agora... Casa de alvenaria.
Outro livro que vae circular
As tristêsas vão duplicar.
Os que pedem para eu auxiliar
A concretisar os teus desejos
Penso: eu devia publicar...
– o ‘Quarto de Despejo’.
No início vêio adimiração
O meu nome circulou a Nação.
Surgiu uma escritora favelada.
Chama: Carolina Maria de Jesus.
E as obras que ela produz
Deixou a humanidade habismada
No início eu fiquei confusa.
Parece que estava oclusa
Num estôjo de marfim.
Eu era solicitada
Era bajulada.
Como um querubim.
Depôis começaram a me invejar.
Dizia: você, deve dar
Os teus bens, para um assilo
Os que assim me falava
Não pensava.
Nos meus filhos.
As damas da alta sociedade.
Dizia: praticae a caridade.
Doando aos pobres agasalhos.
Mas o dinheiro da alta sociedade
Não é destinado a caridade
É para os prados, e os baralhos
E assim, eu fui desiludindo
O meu ideal regridindo
Igual um côrpo envelhecendo.
Fui enrrugando, enrrugando...
Petalas de rosa, murchando, murchando
E... estou morrendo!
Na campa silente e fria
Hei de repousar um dia...
Não levo nenhuma ilusão
Porque a escritora favelada
Foi rosa despetalada.
Quantos espinhos em meu coração.
Dizem que sou ambiciosa
Que não sou caridosa.
Incluiram-me entre os usurários
Porque não critica os industriaes
Que tratam como animaes.
– Os operários...
- Carolina Maria de Jesus, em "Meu estranho diário". São Paulo: Xamã, 1996, p. 151-153. (grafia original)
FONTE: http://www.elfikurten.com.br/2014/05/carolina-maria-de-jesus.html